Juventude
e Trabalho
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Ao longo de sua histria, o Brasil tem enfrentado o problema da excluso social que
gerou grande impacto nos sistemas educacionais. Hoje, milhes de brasileiros ainda
no se beneficiam do ingresso e da permanncia na escola, ou seja, no tm acesso a um
sistema de educao que os acolha.
Educao de qualidade  um direito de todos os cidados e dever do Estado; garantir o
exerccio desse direito  um desafio que impe decises inovadoras.
Para enfrentar esse desafio, o Ministrio da Educao criou a Secretaria de Educao
Continuada, Alfabetizao e Diversidade  Secad, cuja tarefa  criar as estruturas necessrias
para formular, implementar, fomentar e avaliar as polticas pblicas voltadas para os grupos
tradicionalmente excludos de seus direitos, como as pessoas com 15 anos ou mais que no
completaram o Ensino Fundamental.
Efetivar o direito  educao dos jovens e dos adultos ultrapassa a ampliao da oferta
de vagas nos sistemas pblicos de ensino.  necessrio que o ensino seja adequado aos que
ingressam na escola ou retornam a ela fora do tempo regular: que ele prime pela qualidade,
valorizando e respeitando as experincias e os conhecimentos dos alunos.
Com esse intuito, a Secad apresenta os Cadernos de EJA: materiais pedaggicos para o
1. e o 2. segmentos do ensino fundamental de jovens e adultos. Trabalho ser o tema da
abordagem dos cadernos, pela importncia que tem no cotidiano dos alunos.
A coleo  composta de 27 cadernos: 13 para o aluno, 13 para o professor e um com
a concepo metodolgica e pedaggica do material. O caderno do aluno  uma coletnea
de textos de diferentes gneros e diversas fontes; o do professor  um catlogo de atividades,
com sugestes para o trabalho com esses textos.
A Secad no espera que este material seja o nico utilizado nas salas de aula. Ao contrrio,
com ele busca ampliar o rol do que pode ser selecionado pelo educador, incentivando
a articulao e a integrao das diversas reas do conhecimento.
Bom trabalho!
Secretaria de Educao Continuada,
Alfabetizao e Diversidade  Secad/MEC
Apresentao
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Sumrio
TEXTO Subtema
1. Para quem no tem experincia Relicostumes 6
2. Cinco dias por dois 8
3. A fome do lobo Diversidades regionais 10
4. Formacin y empleo Maturidade social 13
5. O jovem e o adolescente Miscigenao 14
6. O que  grafite? Crtica social 16
7. O primeiro emprego Trabalhadores 18
8. The british are coming! Cultura suburbana 20
9. Desempregado, sim, desocupado, noa luta dos negros 24
10. De norte a sul Ambiente de trabalho 26
11. O aprendiz Identidade nacional 31
12. Juventude rural: ampliando as oportunidades Ambiente de trabalho 32
13. O trem ndios do Brasil 34
14. O jovem e suas comprasImigrao e culinria 37
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15. Deus-dar Direitos civis 38
16. Procura-se trabalho Origens dos trabalhadores 40
17. Primeiros passosndios do Brasil 44
18. Se liga, mano! 45
19. HIV e trabalho Olhos da alma 46
20. Para alm dos ovos e tomates Arte culinria 48
21. Mudana de estiloArte culinria 50
22. Nada  impossvel de mudarArte culinria 52
23. Soneto de juventude Arte culinria 53
24. Conselho nacional de juventude aprova por aclamao carta
sobre acessibilidade Arte culinria 54
25. Ensaio: Bruno Miranda Arte culinria 58
26. A reduo s complica Arte culinria 60
27. A verdadeira dana do patinho Arte culinria 63
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Desemprego juvenil
TEXTO 1
 Juventude e Trabalho 6
PARA
QUEM
NO
TEM EXPERINCIA
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Pesquisas divulgadas pelo Departamento
Intersindical de Estatstica e
Estudos Socioeconmicos  DIEESE,
sobre emprego e desemprego, denunciam
que os jovens representam 45,5% dos
desempregados, quase metade de todos os
desempregados do pas.
Segundo o DIEESE, dos 3,2 milhes de
desempregados pesquisados nas regies
metropolitanas de So Paulo, Belo Horizonte,
Porto Alegre, Salvador, Recife e
Distrito Federal, 1,5 milho so jovens de
at 24 anos.
A populao economicamente ativa
com mais de 16 anos  minoria entre os
que conquistaram um posto de trabalho. A
fase mais crtica compreende o perodo
entre os 16 e os 24 anos. Justamente porque
 esta a fase da vida que coincide com
a concluso de uma formao e a busca de
uma vaga no mercado de trabalho.
Sabemos que a necessidade de uma
colocao no mercado de trabalho, muitas
vezes, atrapalha e desestimula a continuidade
dos estudos, ampliando os nmeros
da evaso escolar.
Neste sentido, a pesquisa demonstra que
os jovens trabalham com uma carga horria
acima do limite legal, colaborando para o
afastamento dos bancos escolares. Alm do
que, o rendimento recebido pelos jovens
varia entre um e dois salrios mnimos.
A falta de uma perspectiva profissional
para os milhares de jovens brasileiros  um
fator preponderante de desagregao social
e de aumento da criminalidade. Baseados
nestes dados, conclumos que  preciso
fomentar a economia brasileira e gerar os
empregos de que o pas precisa.
Um dos maiores especialistas em
desemprego do pas, Mrcio Pochmann, em
uma entrevista dada em 2000, j alertava
sobre o assunto dizendo o seguinte:
Como h pessoas disponveis e no h
vagas para serem ocupadas, isso gera um
acirramento da competio no interior do
mercado de trabalho. Os postos de trabalho
que eram tradicionalmente ocupados
pelos jovens esto sendo hoje ocupados por
adultos.  por isso que as empresas dizem
que o jovem no tem preparao.
No mundo inteiro, hoje, temos o
maior nmero de adolescentes de toda a
histria da humanidade. Por isso, precisamos
investir nos jovens, promover o seu
desenvolvimento, criar perspectivas favorveis
para o seu futuro e apoiar sua
participao integral na sociedade.
Desempregados de at 24 anos
enfrentam dificuldades na hora
de entrar no mercado de trabalho
Juventude e Trabalho  7
Paulo Paim
Adaptado de discurso pronunciado em 14 de setembro de 2006
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CINCO
DI
A
S
C
Rhuna | Composio: Alex Martinho/Rafael de Castro
Carlos  um cara ocupado com a vida
Que rala todo dia pelo po de cada dia
E no tem tempo pra nada, s estudo e trabalho
Cada hora  apenas mais uma volta do relgio
Que ele olha apressado pra ver se t na hora da aula do cursinho
Que ele acredita possa trazer uma nova vida
E s deve trazer ainda mais agulhao
Mas quando chega o fim de semana  hora de tudo mudar
Pe a camisa sem manga, expe a tattoo e sai pra provocar
Ele vai arrepiar
Se der mole quebra tudo, quer extravasar
Ela chega e vem pra provocar
Sai de baixo, ele no perdoa, chega junto
Oh, oh, oh, uh, oh, chega junto, fica junto, quebra tudo
Rotina do jovem
TEXTO 2
 Juventude e Trabalho 8
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POR
DOIS
Juventude e Trabalho  9
Carolina s estuda o dia todo trancada no seu quarto
O dia passa e nada faz ela olhar o sol
"Eu preciso passar", pensa ela o tempo todo
O stress e o sono no importam
A hora corre mas ela nem olha pro relgio
Quando nota o dia j se foi
E amanh vai ser tudo outra vez
Mas quando chega o fim de semana  hora de tudo mudar
Pe a maquiagem, o vestido colado, e parte pra night pra provocar
As mscaras caem no fim de semana
 hora do show particular
Extrado do site: http://rhuna.letras.com.br/letras/513896/
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A FOME DO LOBO
Ame me ligou desesperada. O filho estava preso na
Papuda, um presdio em Braslia onde ficam os que
cometem crimes os mais horrveis, aqueles que perderam
os tnues fios que os laariam para uma vida compreendida,
aceita por todos. Ah, aquele rapaz  bom, ele 
trabalhador, ele no faz mal a ningum,  pobre mas no
incomoda! Ah, aquele ali  melhor que desaparea, que
morra! O rapaz tem cerca de 30 anos, mas  como se tivesse
100 anos, porque muito se gastou. A me, essa tem mil
anos (o outro filho caiu na droga, como viver num lugar
assim e preservar os filhos?). Aos 20, o rapaz envolveu-se com
uma gangue que roubava toca-fitas de carros. Me e filhos
moram na cidade-satlite do Guar, periferia de Braslia, guar
 o nome de um lobo, lindo, vermelho de pernas altas e negras,
e seu uivo parece o grito de uma pessoa pedindo socorro. Um
dia, a polcia bateu na casa daquela me atnita, sem recursos
de nenhuma espcie, e encontrou no quarto do rapaz peas
roubadas. Ele foi preso, sofreu torturas na delegacia  arrancaram
unhas das suas mos e ps, diz a me, com a dor de
uma madona, mas como se expiasse a culpa de ter um filho
errado, de agressor ele passou a vtima, de me de um agressor
ela se tornou a me de uma vtima. Foi bom para ele aprender,
ela diz, conformada. O filho foi para a priso. Um rapaz
quieto, que nunca levanta a voz, com cara de sonso.
A polcia e a justia transformam
infratores em criminosos e vtimas
Risco social
TEXTO 3
 Juventude e Trabalho 10
Ana Miranda
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Como teve bom comportamento, deixaram que cumprisse
a pena em casa, e ele no se apresentou mais  Justia,
sendo considerado foragido. A me teve um longo e rduo
trabalho para recuperar o filho, sem a ajuda de ningum,
s a do prprio filho. Com o tempo foram conseguindo. O
filho no arrumava emprego em lugar nenhum, mas passou
a vender cachorro-quente na porta de uma escola, a preparar
churrascos em stios, ah, se os burgueses soubessem que
o churrasqueiro era um foragido, e acabou por comprar
ele mesmo uma carrocinha de cachorro-quente, casou, teve
filhos, tornou-se um pai, um marido, um trabalhador. H
pouco tempo conseguiu afinal o dinheiro para seu sonho,
que era comprar um carro. Encontrou um com preo timo
e o comprou, mas, quando foi atrs dos documentos, soube
que o carro tinha problemas, talvez fosse roubado. Ele e a
me procuraram a mulher que lhes vendera o carro, ele
exigiu o dinheiro de volta, mas a mulher negava que o carro
fosse roubado e no quis desfazer o negcio. Ao passar por
uma blitz numa das ruas de Braslia, o rapaz se lembrou de
Juventude e Trabalho  11
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sua condio, e sem os documentos do carro apavorou-se,
acelerou, tentou escapar. Perseguido pela polcia, detido,
acabou numa delegacia. Foi bom para ele aprender, repetiu
a me. Constataram sua condio diante da Justia e o
enviaram para a Papuda. Ento, a me me ligou.
Essa histria  a histria mais comum nas nossas periferias.
Com a diferena de que o rapaz foi recuperado para
viver na sociedade sem incomodar ningum, tornou-se uma
pessoa til. O mais comum  que os jovens se enredem cada
vez mais na trama do crime, nesse submundo que permeia
todas as nossas classes sociais, mas principalmente nos
lugares onde os lobos gritam por socorro. Eu soube, dias
atrs, que o rapaz conseguiu a priso domiciliar e est
novamente vendendo seus cachorros-quentes e fazendo
churrascos, vivendo com a famlia, mas dorme na priso.
Essa histria faz pensar em quantos outros jovens devem
estar em situao semelhante, com histrias de vida parecidas,
mas sem algum para lhes dar um oriente. Fiquei
sabendo que existe em Braslia uma organizao ligada a
direitos humanos que trata desses casos, e com muita
competncia. Existe uma fronteira entre o criminoso e o
quase criminoso, digamos assim, e  este ltimo quem mais
merece ateno e apoio, no somente as penas alternativas,
mas um trabalho dirio e extenuante, como o daquela
me que aprendeu a conhecer a fome do lobo.
Texto 3 / Risco social
 Juventude e Trabalho 12
Extrado da revista Caros Amigos n 91.
Ana Miranda  escritora, autora de Boca do Inferno,
Desmundo, Amrik, Dias & Dias, Deus-dar, entre outros livros.
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Juventude e Trabalho  13
El 27% de los jvenes brasileos
entre 15 y 24 aos que vive en las
grandes regiones urbanas del pas
no trabaja ni estudia, segn encuestas
realizadas en las principales regiones
metropolitanas del pas.
Muchas veces, a causa de la dificultad
de encontrar un empleo, los jvenes se
desaniman y dejan de buscar hasta que la
situacin del pas mejore. Otros pueden
estar estudiando en casa o haciendo cursos
espordicos.
Una queja comn consiste en la
restriccin del mercado de trabajo. Sin
insercin laboral posible, nunca se tendr
la experiencia solicitada para acceder
a un empleo.
FORMACIN
Y EMPLEO Un cuarto de los
jvenes brasileos
no trabaja ni estudia
Desemprego juvenil
TEXTO 4
Extrado do site http://www.ilo.org/public/spanish/region/ampro/
cinterfor/temas/youth/rec_dif/jov_bra.htm
GLOSARIO
Acceder. ter acesso a, alcanar algo
Empleo. emprego
Encuesta. pesquisa de opinio
Hasta. at
Laboral. de trabalho
Mejorar. melhorar
Ninguna. nenhuma
Queja. queixa
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Embora muitas vezes tidas como sinnimos,
juventude e adolescncia
tm significados distintos, ainda que
superpostos.
A Organizao das Naes Unidas
(ONU) define como jovens as pessoas entre
15 e 24 anos.
A Organizao Mundial de Sade
(OMS) entende que a adolescncia  um
processo biolgico, que vai dos 10 aos 19
anos de idade, abrangendo a pr-adolescncia
(10 a 14 anos) e a adolescncia
propriamente dita (15 a 19 anos). J a
juventude  considerada uma categoria
sociolgica que implica a preparao dos
indivduos para o exerccio da vida adulta,
abrangendo a faixa dos 15 aos 24 anos de
idade. As diferenas entre adolescncia e
juventude, portanto, no se limitam 
idade, mas aos conceitos, demonstrando
processos de naturezas distintas.
Mais comum ainda do que falar da
adolescncia e da juventude como a mesma
coisa  se referir indistintamente aos que
vivem esses perodos como adolescentes ou
jovens. Como se observa em reportagens,
em conversas informais e at mesmo em
textos tericos. Tambm pode ser verificado
nas definies encontradas no dicionrio
Aurlio, por exemplo (veja boxe).
Embora a juventude possa ser considerada
uma categoria social que agrupa os
que compartilham a mesma fase de vida, 
preciso ficar atento  multiplicidade de
experincias que se renem sob essa denominao.
Ser que podemos falar numa
mesma experincia juvenil vivida por um
jovem morador do serto nordestino, e por
Ser jovem
TEXTO 5
 Juventude e Trabalho 14
O JOVEM E
O ADOLESCENTE
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Juventude e Trabalho 
Foto: Xxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxx
15
Juventude - 1. Idade moa; mocidade,
adolescncia, Juventa. 2. a gente
moa; mocidade. 3. fase do ciclo de
um lago na qual este recebe mais gua
do que perde e por isso tem maior
durao.
Adolescncia - 1. 0 perodo da vida
humana que sucede  infncia, comea
com a puberdade, e se caracteriza
por uma srie de mudanas corporais
e psicolgicas (estende-se aproximadamente
dos 12 aos 20 anos).
Jovem - 1. Que  moo, que est na
idade juvenil; juvenil. 2. produzido ou
criado pelos jovens, pela juventude. 3.
diz-se do animal de tenra idade.
Adolescente - 1. Que est na adolescncia.
2. Fig. Que est no comeo, no
incio; que ainda no atingiu todo o
vigor. 3. De pouco tempo; novo: "Plantei,
com a minha mo ingnua e
mansa, / Uma linda amendoeira adolescente".
(Raul de Leoni, Luz Mediterrnea,
p. 65). 4. Prprio do adolescente:
"D. Camila prolongou, quanto
pde, os vestidos adolescentes da
filha." (Machado de Assis, Histrias
sem data, p. 122). 5. Pessoa que est
na adolescncia.
Extrado do site: http://www2.uol.com.br/aurelio
Extrado do livro Dilogos com o mundo juvenil / Ana Paula
Corti e Raquel Souza / Ao educativa, 2005
Segundo o mestre
um jovem que reside num grande centro
urbano? Certamente no.
A classe social, a condio tnica e de
gnero, a presena ou no no mercado de
trabalho e na escola, a moradia  urbano
ou rural  a situao familiar e a orientao
religiosa so fatores que vo diferenciando
internamente esse grupo que chamamos de
juventude. Afinal, dois jovens negros, por
exemplo, que possuam diferentes condies
econmicas tero provavelmente experincias
juvenis muito diferentes.
Por isso, ao falar das experincias de
vida juvenis propriamente ditas,  preciso
reconhecer uma multiplicidade  o que nos
leva a falar de juventudes, no plural.
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? Cultura juvenil
TEXTO 6
 Juventude e Trabalho 16
O QUE  GRAFITE
A arte que embeleza ou enfeia as cidades
tem origem na antiguidade
Para muitos, o grafite  apenas uma
"pichao evoluda". Para outros, 
uma arte urbana. O fato  que ele est
presente em diversas partes da cidade:
banheiros pblicos, fachadas de edifcios,
muros, casas abandonadas, nibus, metr,
orelhes, postes, monumentos pblicos e
outros lugares expostos.
A palavra grafite tem origem na Itlia
e significa "escrita feita com carvo".
Os antigos romanos escreviam assim,
com carvo, manifestaes de protesto, ou
de qualquer outro cunho nas paredes das
construes. Alguns desses grafites ainda
podem ser vistos em stios arqueolgicos
espalhados pela Itlia.
No final da dcada de 1960, jovens
do Bronx, bairro de Nova York, (EUA),
restabeleceram essa forma de arte usando
tintas spray. O grafite seria uma das
trs manifestaes artsticas do hip-hop,
movimento nascido nos guetos americanos
que rene outras duas modalidades:
o rap e o break.
Os artistas do grafite costumavam
escrever os prprios nomes em seus trabalhos
ou chamar a ateno para problemas
de ordem poltica ou questes sociais.
Grafite: Os Gmeos  Foto: Ruy Fraga
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No Brasil, as crticas ao grafite se
devem s pichaes de fachadas, monumentos,
igrejas, e mesmo de residncias.
Para reverter esse problema, algumas cidades
esto convidando artistas do grafite
a participar de projetos que visam embelezar
os locais pblicos. Por exemplo, a
Universidade de So Paulo (USP) decidiu
organizar a primeira cooperativa brasileira
de grafiteiros, muitos deles ex-pichadores.
O objetivo  profissionaliz-los com
orientao de professores de artes plsticas
e designers, de forma a exibirem seus
trabalhos em painis e muros especialmente
destinados a esse fim.
Juventude e Trabalho  17
Extrado e adaptado do site:
http://www.ibge.gov.br/ibgeteen/datas/desenhista/grafite.html
Pode-se dividir o grafite
em seis modalidades:
Grafite 3D: desenhos concebidos a partir
de idias visuais de profundidade, sem
contornos. Exige domnio tcnico do grafiteiro
na combinao de cores e formas.
WildStyle: tem o formato de letras distorcidas,
em forma de setas, que quase
cobrem o desenho.
Bomber: so letras gordas e que parecem
vivas, geralmente feitas com duas
ou trs cores.
Letras grafitadas: incorporao das
tcnicas do grafite  pichao. As letras
grafitadas representam a assinatura do
grupo.
Artstico ou livre figurao: nesse
estilo vale tudo: caricaturas, personagens
de histria em quadrinhos, figuraes
realistas e elementos abstratos.
Com mscaras e spray: facilita a rpida
execuo e disseminao de uma
marca individual ou de grupo.
Grafite: Binho  Foto: Ruy Fraga
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Renato Pompeu
Segundo as estatsticas governamentais,
os jovens que nunca tiveram um emprego,
mas que esto  procura de um
lugar no mercado de trabalho, constituem
hoje em dia no Brasil a faixa da populao
em que h maior proporo de desempregados.
Pois, para ser considerado desempre-
PRIMEIRO
EMPREGO
Como conseguir um primeiro
emprego, quando, naturalmente,
no se tem experincia?
Desemprego juvenil
TEXTO 7
 Juventude e Trabalho 18
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gado, no basta no ter emprego:  preciso
tambm estar procurando um. E nas grandes
cidades se contam s centenas de milhares,
seno aos milhes, os jovens que esto
procurando seu primeiro emprego.
A primeira dificuldade que esses jovens
encontram  que, por definio, no tm
nenhuma experincia de trabalho. E, na fila
dos desempregados candidatos a cada
emprego, sempre haver, na atual situao
do Pas, uma ou mais pessoas que tenham
experincia em atuar no servio para o qual
h vagas. Ao contrrio do que poderia parecer
 primeira vista, fica mais fcil uma
pessoa mais velha conseguir um emprego
depois de ter perdido outro, do que uma
pessoa mais nova conseguir um emprego
pela primeira vez.
Um dos conselhos que so dados aos
candidatos ao primeiro emprego  que
procurem aperfeioar ao mximo a sua
formao. Se esto no curso secundrio,
devem procurar formar-se num dos numerosos
cursos profissionalizantes oferecidos
por entidades do comrcio e indstria e por
ramos especficos, como a hotelaria e o
design. A formao profissional especializada
pode suprir a falta de experincia de
trabalho, reforando a situao do candidato
no caso de ele procurar emprego
numa rea para a qual est especificamente
qualificado.
Se, porm, os candidatos ao primeiro
emprego esto fazendo curso superior, o
ideal  que busquem formar-se como mestres
e como doutores e que aperfeioem os
seus conhecimentos de lnguas estrangeiras
 quanto mais ttulos a pessoa acumular,
maiores sero suas chances, principalmente
nas maiores e melhores empresas,
mais exigentes em matria de qualificao.
Deve-se estar atento para os empregos
oferecidos em anncios de jornais, inclusive
os jornais de menor expresso, como os
jornais de bairro. Deve-se enviar currculos
bem-feitos e atraentes para todos os canais
possveis e imaginveis, inclusive pela
Internet. Mas aqui  preciso tomar cuidado.
Existem empresas que cobram para
armazenar currculos, alegando que os
divulgam junto aos departamentos respectivos
das firmas empregadoras, numa
verdadeira bolsa de empregos. Nem
todas essas empresas, entretanto, cumprem
o que prometem.  mais sensato dirigir-se
s prprias firmas empregadoras, ou aos
servios governamentais e sindicais de
colocao. Acima de tudo, jamais desistir:
insistir sempre em procurar o primeiro
emprego, at alcan-lo.
Renato Pompeu  escritor e jornalista
Juventude e Trabalho  19
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Cultura juvenil
TEXTO 8
THE BRITISH
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Piers Grimley Evans
In the 1960s an enormous quantity of
foreign bands making success in America
was known as the British invasion.
Today, the trend has reversed. While
American bands occupy a large part of the
UK pop market, this year  for the first time
since 1963  there were weeks without any
British artist listed in the US top 100. But a
new style of dance music, UK Garage, could
change things. In the competitive arena of
urban music, it has triumphed over transatlantic
competition and is currently prepared
for global success. Timmi Magic, 1/3
of the influential group of DJs and producers,
the Dreem Teem, explains the reason:
Timmi Magic: In the last two years,
weve had top tens, number ones and
theres been a variety of styles that have
changed from basic club music to something
really popular. And Im sure the rest
of the world will like it. If they like vocals,
theres vocals there, if they like instruments
like bass theres bass line, you know. So
Im sure that the rest of the world is going
to like it. Now its already in Europe. You
can hear UK Garage in Amsterdam, in
Switzerland, Belgium, places like that, you
know, where people like night clubs. So,
you know, thats a start out of England but
we expect to go to more and more countries
and continents.
The Cyprus Sound
The fast beat, big vocals and heavy bass
lines of UK Garage were first heard in 1996
on the events of innovative DJs like the
Dreem Teem. An underground scene,
sustained by illegal pirate radio stations,
then popularized from London to major
cities around Britain. By the start of 2000,
it was regularly in the clubs and many
people went to Cyprus every summer to
enjoy garage at the vast clubs of Ayia Napa.
Juventude e Trabalho  21
The rediscovery of the garage music: the elegant and
aggressive sound that is beating in the British night clubs
ARE COMING!
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The music is a mix of House, R&B and
Drumnbass. The attitude, explains Simon
Long, the music manager at London radio
station, Kiss 100 FM, is new and distinctive.
Simon Long: Its an urban experience.
Its an urban attitude. Its lots of different
cultures together, lots of different musical
styles together, people with different interests,
its not important if its drumn bass,
ragga, reggae. Its a predominantly black
experience. The attitude is very urban. Its
very aspirational too, because people are
interested in this music and the DJs like to
dress in nice clothes, fashion, etc. This was
not common before. You know, you see
people going to clubs in suits and they
drink the most expensive champagne. Its
called The Bling Bling, you know. Its all
about the gold and the flashy jewellery and
its all about image. So I would say thats
the attitude. Its streetwise. Its sassy. In
that, its very exhibitionist too.
Not So Solid
In 2002 UK Garage has a higher profile
than ever, but it has also attracted a lot of
controversy, with the explosive arrival of 30
south London garagists named The So
Solid Crew. Until they appeared, UK Garage
had more melodic pop music. The lyrics, in
the words of Timmi Magic, were about
getting out on the dancefloor. The So
Solid Crew produce less melodic music and
much darker lyrics. One track includes the
expression to beat your ass up and take
you to the morgue. There are rumours of
a division in UK Garage and of hostility
between successful artists and a confrontational
younger generation. Timmi Magic
says it is not true, although he has some
reservations and critics about The So Solid
Crew as a Garage group:
Timmi Magic: Weve always believed
that any music thats in the name of UK
Garage, or anything that we can play on the
Texto 8 / Cultura juvenil
 Juventude e Trabalho 22
8CA03BT02P2.qxd 12/15/06 5:38 PM Page 22
dance floor, were going to support. Some
people say, You know, that the music The
So Solid produces isnt really UK Garage.
Its more like UK Hip-hop, and I sometimes
agree, because the elements that we
believed were garage (US Garage, UK
Garage and others), are the vocals and
melodies, but these songs have more
rhythm and breaks and rapping, and that
is more related to the hip-hop category. So
you never know, maybe it is the evolution
of a new type of music. Only time can tell
if UK Garage is going to be remembered as
a goodtime dance music, or as something
darker. The British record industry hopes
that young people will be hearing a lot
more of both, particularly, of course, in
America.
Juventude e Trabalho  23
Extrado do site
http://speakup.ig.com.br/stories_b/183_garage.shtml
GLOSSARY
Arrival. chegada
Bass. contra-baixo
Beat. batida, ritmo
Confrotational. agressiva.
Currently. atualmente
Getting out on the dancefloor. soltar-se na
pista
Lyrics. letra.
Morgue. necrotrio
Sassy. atrevida.
Streetwise. com conhecimentos da rua
Trend. tendncia
The flashy jewellery. jias reluzentes
To beat your ass up. "quebrar sua cara"
8CA03BT02P2.qxd 12/15/06 5:38 PM Page 23
Para quem ainda acha que ter trabalho
 ter emprego, a explicao de
Vernica S, 18 anos,  curta e clara:
Trabalho  tentar se organizar de forma
criativa para atuar economicamente na
sociedade. Com isso, ela demonstra que
h pelo menos uma parte da juventude
brasileira que no  apenas produto (ou
vtima) da era do fim do emprego.
Jovens como Vernica tambm consideram-
se agentes, com direito de optar e
criar novas formas de trabalho, nas quais a
atividade profissional tambm proporcione
conhecimento e prazer. Parece discurso de
quem tem timas condies econmicas e,
teoricamente, no so pressionados pela
necessidade de ganhar dinheiro. Mas, para
a sociloga Lvia de Tommasi, coordenadora
do projeto Rede de Juventude, que atua
no Nordeste do Brasil, a separao entre
trabalho e emprego e a viso de que trabalho
deve proporcionar prazer  comum aos
jovens de todas as camadas sociais, mesmo
as mais pobres. Eles querem trabalho, sim,
no s por causa da necessidade do dinheiro,
mas tambm para crescimento pessoal.
Quando peo para que definam trabalho
com uma palavra, um adjetivo, o que ouo
muito  prazer, satisfao, compromisso.
Por que a gente tem de trabalhar?
Muita gente acha que  para ter uma
participao ativa na sociedade. E acredita
nos princpios do trabalho solidrio como
uma nova forma de participar, de intervir
no meio em que vivemos, na comunidade.
 o que Vernica S pensa e faz: no grupo
DESEMPREGADO,
SIM,
DESOCUPADO,
NO
A iniciativa pode criar ocupaes
produtivas quando o mercado
formal se fecha.
Empreendedorismo
TEXTO 9
 Juventude e Trabalho 24
Iara Biderman
Foto Valria Gonalvez / AE
9CA03BT25P2.qxd 19.01.07 10:00 Page 24
Juventude e Trabalho  25
Conexo Solidria, do Liceu de Artes e Ofcios
da Bahia, ela aplica os seus princpios.
Estudante de relaes pblicas, acha que a
faculdade que cursa est muito voltada
para a rea empresarial, e procura, em seu
trabalho, romper com as barreiras.
Por que a gente tem de trabalhar?
Para ter uma participao economicamente
ativa na sociedade. O trabalho solidrio 
uma nova forma de participar, diz.
Para Vernica, o Conexo  um espao
onde ela pode fazer o que gosta, da maneira
que acredita ser a melhor. Esse prazer no
que faz a ajuda a encarar horrios extras
aos sbados, domingos, s vezes, noite
adentro. Meu trabalho e minha vida pessoal
esto misturadssimos, no sei onde
comea um e termina o outro, diz. Essa
mistura  tpica dos jovens que podem estar
desempregados, mas nunca desocupados.
Operrio da criao
Conciliar perodos de muito trabalho
com pocas de quase nada tambm 
comum. Meu trabalho  prazeroso, mas h
momentos em que me sinto um operrio,
tenho de criar e produzir direto. Mas tambm,
quando quero, fico em casa. 0 emprego
formal me impediria isso, diz o artista
plstico Roberto Carlos Pereira, o Bessa,
de 25 anos, que tem um ateli de bonecos
na cidade de Olinda, em Pernambuco.
Bessa conta que tirou sua carteira de trabalho
aos 16 anos, mas nunca a usou. S
entraria em um emprego se fosse algo em
que acreditasse.
E se no for artista?
Nem todo mundo vai ser artista, nem
este pode ser o nico caminho. Porm, um
misto de trabalho solidrio, criativo e de
qualidade pode ser um timo caminho. O
coletivo xitos D'Rua, de Recife, por exemplo,
aproveita o talento dos jovens para
criar oportunidades de trabalho. Utiliza
tcnicas de grafitagem, por exemplo, para
produzir camisetas, capas de CD, ou para
anunciar shows. Com isso, seus jovens e
criativos trabalhadores tambm podem
manter uma loja solidria, onde cada um
coloca os seus produtos de forma que todos
possam compr-los.
Extrado da revista Onda Jovem  Ano I, no 2, jul/05
Instituto Votorantim
Aergrafos da ONG Revolucionarte pintam
o tnel que liga a Avenida Dr. Arnaldo a
Avenida Paulista, em So Paulo. Na foto,
Edmilson Barbosa (21 anos) pinta a obra
"Casamento na Roa", de Cndido Portinari
9CA03BT25P2.qxd 12/13/06 7:03 PM Page 25
Um estilo quase musical que
serve de veculo a textos em
geral libertrios e de protesto
Cultura juvenil
TEXTO 10
 Juventude e Trabalho 26
DE NORTE
A SUL
Grafite: Titi Freak  Foto: Ruy Fraga
10CA03BT07P2.qxd 19.01.07 09:59 Page 26
No tem mais volta: a tendncia 
mesmo a expanso do movimento
hip-hop. Com ajuda do poder pblico,
o movimento ganha fora mais
rpido; se tiver espao na mdia, a nem
se fala. No entanto, parece que, se no
tiver ajuda de nenhum dos dois, o pessoal
se articula e acontece mesmo assim.
Achamos o movimento hip-hop em todas
as regies brasileiras.
NORDESTE
O Nordeste est bem organizado politicamente.
 em Teresina, por exemplo, que
fica a sede do MHHOB (Movimento Hip-
Hop Organizado). A sede, chamada Centro
de Refrencia da Cultura Hip-Hop,  o maior
espao dedicado  cultura no pas. L acontecem
oficinas de MC, a produo de um
fanzine e at um pr-vestibular para negros.
Em Recife, o pessoal tambm est a
cada dia mais organizado. O movimento
comeou a crescer em 2000 e hoje existe
a Associao Metropolitana de Hip-Hop,
que une todos os grupos locais. Galo de
Souza, referncia do hip-hop pernambucano
pela sua atuao poltica, diz que a
associao pensa aes para estruturar o
hip-hop na regio.
Em Salvador, a infra-estrutura  frgil
 os shows acontecem em praas e nas
escolas  e faltam equipamentos para os
DJs e informao sobre o rap de outros
estados. Mas o movimento vem crescendo
e hoje se ouve o freestyle  rima de
improviso  na sada das escolas, nos
intervalos de aulas e at em pontos de
nibus. A batida costuma misturar elementos
da cultura negra,  o hip-hop afro,
como faz o grupo Quilombo Vivo, de
Amaralina, em Salvador, que mistura
capoeira e candombl em suas msicas.
Outros grupos representativos so: Fria
Consciente, Quilombahia, DGS, Simples
Raportagem, Juri Racional, Lica, Os
Agentes, Anjos da Rima e Jr-junior.
Em So Lus, a miscelnea  com
elementos do folclore, em uma combinao
de rap com tambor-de-crioula e com
tambor-de-minas. O Cl Nordestino, grupo
de So Lus, fez uma batida na msica
Toada do Cl que comea com cantoria de
bumba-meu-boi, passa para a batida do rap
e volta para o bumba-meu-boi: uma mistura
verdadeiramente original. Eles tambm
misturam rap com maracatu. Lamartine, do
Cl, explica que a influncia  inevitvel.
Juventude e Trabalho  27
Jlia Contier
10CA03BT07P2.qxd 19.01.07 09:59 Page 27
A gente se criou ouvindo tambor no
terreiro das nossas casas, ouvindo cantiga,
ouvindo ladainha, at porque a gente veio
do interior do estado, ento essa convivncia
com o tambor-de-crioula e o bumbameu-
boi  natural.
NORTE
O Norte do Brasil tambm est articulado
e unido. H mais de um ano
formou-se a rede Movimento Hip-Hop na
Floresta ou MHF, filiada ao MHHOB. O
MHF funde a ideologia hip-hop com
conceitos ecolgicos para fortalecer a
cultura amaznica. Tem MHF no Par,
Amap, Acre, Rondnia e Amazonas. Em
julho, vai acontecer um encontro chamado
Ritual do Hip-Hop da Floresta, em Rio
Branco  vai durar uma semana e definir
as diretrizes do movimento, estabelecer
uma agenda e agilizar os projetos.
Preto Michel, representante do MHF
no Par, diz que os grupos costumam
cantar os problemas de cada regio. Em
Belm, o grupo MBC fez uma msica
sobre o massacre de Eldorado dos Carajs;
um grupo de Macap fala da pororoca,
o encontro do rio com o mar; e em Rio
Branco e Roraima a temtica das queimadas
 bastante presente.
O movimento valoriza a cultura amaznica,
as tribos indgenas, os quilombolas
e as populaes ribeirinhas. Por isso, em
Manaus misturam rap com bumba-meuboi.
Em Macap, misturam com o marabaixo,
som percussivo das comunidades
Texto 7 / Cultura juvenil
 Juventude e Trabalho 28
O grupo de rap
Racionais mantm
um ncleo de apoio
 juventude no
bairro proletrio de
Capo Redondo,
na periferia de
So Paulo.
Foto: Vivi Zanatta
10CA03BT07P2.qxd 19.01.07 09:59 Page 28
quilombolas. Nesta cidade, o que chama
ateno  o nmero de grupos: apenas
nove. Alm disso, tem trs grafiteiros, que
lutam por reconhecimento e apoio.
CENTRO-OESTE
O rap aqui  do p rachado. Foi assim
que o MC Letal, da banda goiana Testemunha
Ocular, definiu o rap de l, ou seja,
um rap de raiz, da terra. Eles misturam o
gnero com a congada, catira, folia de reis,
moda de viola. O movimento  um pouco
dividido, no tem sede, e as bandas so
poucas; mas no fica fora de cena.
J o pessoal de Braslia parece priorizar
mais as letras do que a batida. Os
rappers se preocupam demais em retratar
o cotidiano violento e se esqueceram da
musicalidade, o que prejudicou a receptividade
em outras regies do pas, diz a
jornalista e danarina de break Bianca
Chiaviatti. Mas a receptividade em
Braslia  grande, j que a cidade comporta
grandes festivais, como o Abril pro
Rap, que existe h quatro anos  porm,
s em 2005  que o graffiti e o break
ganharam espao. Os grupos de rap em
evidncia so: Vadios Loucos, Atitude
Feminina, Veronika e Cdigo Penal.
SUDESTE
No Rio de Janeiro e em So Paulo
perde-se a conta de quantos grupos e organizaes
existem. Descobrimos at articulaes
no Vale do Paraba, em So Paulo,
onde o hip-hop est presente em todas as
periferias, embora de maneira desorganizada
e desarticulada ainda. Em Jacare, j
existe a Associao Cultural e Educacional
Nego Prettu  em vias de se tornar uma
OSCIP (Organizao da Sociedade Civil de
Interesse Pblico). L funciona um Centro
de Juventude onde acontecem diversas oficinas.
Recentemente, em So Jos dos
Campos, a Cmara Municipal aprovou um
projeto de lei que cria a Semana Hip-Hop,
que vai acontecer sempre em junho. A parte
musical tem muita influncia da capital de
So Paulo, tanto na batida como com letras.
Como em So Paulo, a cultura hip-hop
invadiu Belo Horizonte atravs do break.
A dana chegou  cidade com filmes como
Break Dance, ao qual os jovens assistiam
muitas vezes para aprender os passos; depois
se reuniam em espaos pblicos para
mostrar o que j sabiam. Uma curiosidade:
como os b.boys se instruam pela
tela, acabavam invertendo as posies 
danavam espelhado. Essa caracterstica,
mais a mistura com a capoeira, resultou
em um estilo prprio da regio. O rap,
hoje em dia,  o elemento com mais visibilidade
em Belo Horizonte, mas o graffiti
 o elemento que mais cresce, com amplo
apoio do governo local.
A antroploga Jnia Torres conseguiu
listar mais de trezentos grupos de rap em
sua dissertao de mestrado para a Federal
Juventude e Trabalho  29
10CA03BT07P2.qxd 19.01.07 09:59 Page 29
de Minas Gerais. Entre os de maior destaque
esto A Fuga, Retrato Radical e NUC
 Negros da Unidade Consciente, que mistura
no seu rap samba e cantiga de roda,
alm de levar para o palco apresentaes
de capoeira.
SUL
Parece que em Porto Alegre o hip-hop
est bem ligado ao PT, que ajudou o movimento
durante seus anos de governo. O
Bazi, da banda Da Guedes, de Porto Alegre,
revela: Ganhamos um programa de televiso,
o Hip-Hop Sul, do PT, h alguns anos
atrs, porque o hip-hop gacho se aliou ao
partido para auxili-lo na campanha. Em
troca, disseram que gostariam de ter um
espao melhor e acabaram tendo. Mas e
agora que o PT no  mais governo? Agora
no tinha mais como tirar isso da gente. O
espao j est conquistado. O fato  que o
hip-hop se expandiu em todas as classes
sociais. Tem muita gente fazendo rap em
Porto Alegre  Nitrodi, Odissia, Dependentes,
Manos do Rap, Polmica... so mais
de sessenta grupos. O que prevalece nas
letras  a situao da periferia em geral.
Poucas letras falam da raa negra especificamente,
j que em Porto Alegre a maioria
da populao  branca.
Em Curitiba, o movimento tambm
cresceu depois que conquistou um espao
maior na mdia  hoje h trs programas de
rdio destinados ao do pblico rap. Os integrantes
da banda Conscincia Suburbana
contam que o movimento est se profissionalizando,
mas tende para a polarizao:
enquanto alguns assumem o discurso poltico-
social, que eles chamam de rap raiz,
com trabalhos que levam o hip-hop para as
escolas e para as comunidades, outros
fazem o rap underground, mais danante e
com temas mais alegres.
Em Florianpolis, o hip-hop ainda
engatinha, como diz o grafiteiro Ladio, mas
j conquistou muito espao. Existem algumas
organizaes como a CH2F (Conexo
Hip-Hop Floripa), Nao Hip-Hop e Hip-
Hop Rua. O Nao Hip-Hop faz o Cinema
na Favela, promovendo mostras de filmes
nacionais e, depois da exibio, debates
com alguns atores dos elencos. MV Bill
costuma aparecer por l, pois essa organizao
 filiada  Cufa  Central nica das
Favelas. As outras organizaes tambm
desenvolvem trabalhos sociais, com oficinas
sobre a cultura hip-hop.
Texto 10 / Arte em evoluo
 Juventude e Trabalho 30
Julia Contier  estudante de jornalismo.
Extrado da revista Caros Amigos, Edio especial Hip-Hop Hoje
10CA03BT07P2.qxd 19.01.07 09:59 Page 30
Juventude e Trabalho  31
Renato Pompeu
No Brasil, pelo menos na letra da lei,
no  permitido que uma pessoa
com menos de 16 anos exera
emprego. Mas a Lei do Aprendiz, sancionada
em 2000 e regulamentada em 2005,
permite que, a partir de 14 anos, se faam
cursos profissionalizantes, nos quais a pessoa
pode ficar at completar 24 anos (se a
pessoa sofre de alguma deficincia, pode
continuar como aprendiz depois dos 24
anos de idade.
A cada contrato de aprendizagem, que
tem de ser por escrito e no pode ter prazo
de mais de dois anos, o empregador se compromete
a instruir o aprendiz em tarefas
especficas, adequadas para as caractersticas
dos jovens, e o aprendiz se compromete
a cumprir as tarefas que lhe so designadas.
O contrato deve ser registrado na Carteira
de Trabalho do Aprendiz, que, alm do treino
profissionalizante, deve freqentar tambm
o ensino fundamental at o fim.
Quem d as aulas? O Artigo 8.o da
Regulamentao da Lei do Aprendiz apresenta
as entidades qualificadas:
Art. 8o Consideram-se entidades qualificadas
em formao tcnico-profissional
metdica:
I - os Servios Nacionais de Aprendizagem,
assim identificados:
a) Servio Nacional de Aprendizagem
Industrial  SENAI;
b) Servio Nacional de Aprendizagem
Comercial  SENAC;
c) Servio Nacional de Aprendizagem
Rural  SENAR;
d) Servio Nacional de Aprendizagem do
Transporte  SENAT; e
e) Servio Nacional de Aprendizagem do
Cooperativismo  SESCOOP;
II  as escolas tcnicas de educao,
inclusive as agrotcnicas; e
III  as entidades sem fins lucrativos, que
tenham por objetivos a assistncia ao
adolescente e  educao profissional,
registradas no Conselho Municipal dos
Direitos da Criana e do Adolescente.
Os dados esto a; agora cabe a cada
um decidir se vai ser aprendiz.
Renato Pompeu  escritor e jornalista
 proibido trabalhar antes dos
16 anos, mas se pode aprender
a trabalhar desde os 14
Jovens aprendem
mecnica em curso
profissionalizante
do SENAI
OAPRENDIZ
Primeiro emprego
TEXTO 11
11CA03BT11P2.qxd 12/13/06 7:05 PM Page 31
Jovens no campo
TEXTO 12
 Juventude e Trabalho 32
Fixar o homem ao campo: poucas expresses
so to populares e, ao mesmo
tempo, nocivas a uma poltica de
desenvolvimento rural capaz de mobilizar
as melhores energias da juventude. "
poste, e no gente, que fica parado num s
lugar", gostava de dizer o saudoso Jos
Gomes da Silva, nome emblemtico da luta
pela reforma agrria no Brasil. E em nenhum
outro momento da vida a mobilidade,
o desejo de viver novas experincias e
correr riscos so maiores que na juventude.
Alm de trao caracterstico da juventude,
o impulso para a inovao  evidentemente
til para a sociedade como um todo.
Inovaes projetadas
Para que a propenso dos jovens  inovao
se realize, entretanto,  necessrio
um ambiente social que estimule o conhecimento
e favorea que as novas idias
tenham chance de se tornar empreendimentos.
Uma das maiores doenas de
nosso tempo est exatamente na incapacidade
de as sociedades contemporneas
oferecerem perspectivas para que a inovao
se concretize em projetos  privados
ou sociais  construtivos.
Para isso, o mais importante  que o
destino dos jovens no esteja traado
desde seu nascimento, como fatalidade.
Ora, o pressuposto da to propalada "fixao
do homem ao campo"  que no h
melhor caminho para os jovens rurais que
sua transformao em agricultores. H
dois equvocos nessa suposio.
As sementes da evaso
Estudos mostram que parte importante
dos jovens vivendo hoje em estabeleci-
JUVENTUDE
RURAL: AMPLIANDO AS OPORTUNIDADES
Ricardo Abramovay
12CA03BT16P2.qxd 12/13/06 8:22 PM Page 32
mentos agropecurios  e a grande maioria
das moas, em especial  no deseja
seguir a profisso dos pais. O trabalho limita-
se ao oeste de Santa Catarina, mas 
certamente representativo: mesmo em uma
das regies em que a agricultura familiar
tem maior expresso social e econmica
no pas, um tero dos rapazes e quase dois
teros das moas declaravam no querer
continuar vivendo em estabelecimentos
agropecurios.
Agricultores pluriativos
Uma poltica de desenvolvimento rural
voltada para a juventude no pode limitarse
 agricultura. Os futuros agricultores
sero cada vez mais pluriativos, suas rendas
dependero da agricultura, mas tambm
de outras atividades. Quanto mais os
jovens estiverem preparados para essas
outras atividades  entre as quais se destacam
as voltadas  valorizao da prpria
biodiversidade existente no meio rural 
maiores suas chances de realizao pessoal
e profissional. Alm disso, nas regies rurais
no vivem apenas agricultores. No se
pode ignorar esta realidade elementar e
hoje sobejamente conhecida: o meio rural 
muito maior do que a agricultura.
Uma verdadeira poltica de desenvolvimento
rural deve associar uma educao
de qualidade e estmulo para projetos
inovadores que faam do meio rural,
para eles, no uma fatalidade, mas uma
opo de vida.
A poltica deve contemplar igualmente
os jovens rurais que no querem ser agricultores,
mas gostariam de permanecer em
suas regies de origem, valorizando seus
crculos de amizade, contribuindo para o
surgimento de novas atividades e evitando,
na prtica, a falsa oposio entre a monotonia
e a pobreza da vida interiorana e os
conhecidos problemas das periferias das
grandes cidades.
Ricardo Abramovay  professor titular do Departamento
de Economia da FEA e do Programa de Ps-Graduao em
Cincia Ambiental da USP - Pesquisador do CNPq -
Organizador de Laos Financeiros na Luta contra a Pobreza
(Annablume/FAPESP, 2004)
Extrado de http://www.econ.fea.usp.br/abramovay/
Foto: Vidal Cavalcante / AE
Juventude e Trabalho  33
Cortadores de
cana de Guaba,
regio de Ribeiro
Preto  SP, esto
abandonando
o trabalho por
causa dos baixos
salrios do setor.
12CA03BT16P2.qxd 12/13/06 8:22 PM Page 33
O TREM
Rotina do jovem
TEXTO 13
 Juventude e Trabalho 34
Realidade  muito triste
Mas  no subrbio sujismundo
O submundo que persiste o crime
Pegar o trem  arriscado
Trabalhador no tem escolha
Ento enfrenta aquele trem lotado
No se sabe quem  quem,  assim
Pode ser ladro, ou no,
Tudo bem se for pra mim
Se for polcia fique esperto Z
Pois a lei d cobertura pra ele
Te socar se quiser
O cheiro  mau de ponta a ponta
Mas assim mesmo normalmente
O que predomina  a maconha
E aos milhares de todos os tipos
De manh, na neurose, como
Pode ter um dia lindo
Portas abertas mesmo correndo
Lotado at o teto sempre est
Meu irmo vai vendo
No d pra agentar, sim
 o trem que  assim, j estive, eu sei, j estive
Muita ateno, essa  a verdade
Subrbio pra morrer, vou dizer  mole
Subrbio pra morrer, vou dizer ( mole)
E agora se liga, voc pode crer ( pra gravar, t ?)
Todo cuidado no basta, porque (um toque)
Crnica da arriscada
viagem de todo dia
nos trens de subrbio
Composio: Rzo
13CA03BT21P2.qxd 12/13/06 8:24 PM Page 34
Juventude e Trabalho  35
Subrbio pra morrer, vou dizer ( mole)
Confira de perto,  bom conhecer ( mole)
E agora se liga, voc pode crer ( pra gravar, t ?)
Todo cuidado no basta, porque (um toque)
Subrbio pra morrer, vou dizer...
Todos os dias mesma gente
 sempre andando, viajando,
Surfando, mais a mais no teme
Vrios malucos, movimento quente
Vrios moleques pra vender,
Vm comprar,  aqui que vende
Quem diz que  surfista, 
Ento fica de p, boto m f, assim que 
Se cair vai pro saco
Me lembro de um irmo, troo chato
Subia, descia por sobre o trem, sorria
Vinha da Barra Funda h dois anos todo dia
Em cima do trem com os manos
Surfistas, assim chamados so popularmente
Se levantou e encostou naquele fio,
Tomou um choque
Mas to forte que nem sentiu, foi s nuvens
T com Deus, mano Biro sabe
Subrbio pra morrer, vou dizer  mole
(Refro)
13CA03BT21P2.qxd 12/13/06 8:24 PM Page 35
Texto 21 / Rotina do jovem
 Juventude e Trabalho 36
...E eu peo a Oxal e ento,
sempre vai nos guardar
Dai-nos foras pra lutar, sei vai precisar
No trem, meu bom,  assim,  o que 
Ento centenas vo sentados e
Milhares vo em p
E em todas as estaes, ali preste
Ateno aos PFs
O trem pra, o povo entra e sai
Depois disso, o trem j se vai
Mas o que  isto? Esquisito
E vrias vezes assisti
Trabalhador na porta tomando borrachadas
Marmitas amassadas, fardas, isso  a lei?
Vejam vocs, so ces, s querem humilhar toda vez
Aconteceu o ano passado em Perus
Um maluco estava na paz, sem dever
Caminhava na linha do trem sim, a uns cem metros
Dessa estao, preste ateno, represso
Segundo testemunhas dali, ouvi
Foi na cara dura assassinado, mas no foi divulgado
E ningum est, no est, ningum viu
As mortes na estrada de ferro Santos-Jundia
E ningum t nem a, Osasco-Itapevi,
do Brs a Mogi ou Tamanduate
 o trem que  assim, j estive, eu sei, j estive
Muita ateno, essa  a verdade
Subrbio pra morrer, vou dizer  mole
(Refro)
Fonte P http://rappinhood.letras.terra.com.br/letras/70520/
13CA03BT21P2.qxd 12/13/06 8:24 PM Page 36
O JOVEM E SUAS COMPRAS
Juventude e Trabalho  37
Pesquisa mostra que o jovem mdio
brasileiro se acha mais considerado pelo
que adquire do que pelo que ele .
Os jovens brasileiros se interessam mais
por compras do que os americanos.  o que
diz a pesquisa Os Jovens e o Consumo
Sustentvel, feita por dois institutos especializados
e divulgada pela Fundao Getlio
Vargas. O estudo trouxe revelaes sobre
como pensa a juventude na hora em
que vai s compras, sua percepo da propaganda
e dos impactos de suas prprias
aes  dela, juventude  no meio ambiente
e na sociedade.
A pesquisa foi elaborada a partir de um
levantamento realizado pelo Programa das
Naes Unidas para o Meio Ambiente
(Pnuma) e pela Organizao das Naes
Unidas para a Educao, Cincia e Cultura
(Unesco), no ano 2000, em 24 pases. Cerca
de 70% dos jovens brasileiros entrevistados
disseram que se interessam pelo tema
compras. Entre os norte-americanos,
pas de elevado consumo, o percentual 
menor: 33%.
Jovens brasileiros so tambm os que
mais gostam de televiso e os que menos
se interessam por poltica e sociedade.
Outro dado destacado  o que mostra a
baixa noo de interdependncia das
aes do jovem com o mundo em que vive.
Quase 60% dos entrevistados disseram
que suas aes no tm impacto no mundo;
44% opinaram que suas atitudes no
influem nem na cidade onde moram; e
24% afirmaram que suas aes no causam
impacto nenhum nem em suas prprias
vidas. Conforme a pesquisa, a grande
maioria dos jovens brasileiros (59%)
acha que o seu trabalho no tem impacto
na sociedade, quer dizer, o jovem no se
perceberia como parte de um todo. E o
consumo seria o principal elo de sua ligao
com o meio em que vive. Finalmente,
cerca de 50% disseram que pessoas da
sua idade consomem demais.
Consumo
TEXTO 14
Desvendado o engano contido na frase voc  o que tem.
Fonte P http://integracao.fgvsp.br/BancoPesquisa/pesquisas_
14CA03BT23P2.qxd 12/13/06 8:33 PM Page 37
Na esquina da minha rua fica sempre
o mesmo grupo de meninos,
uns 7 ou 8 anos, com suas caixinhas
de dropes, ou flanelas amarelas. So
alegres, bonitinhos, a pele queimada,
saudveis, com o corpo de idade indefinida,
aquela pequena estatura de criana,
mas sem a ingenuidade infantil. Eles
andam pela cidade sem a companhia de
nenhum adulto, parecem rapazinhos,
mesmo na maneira de andar e falar, bem
espertos, astuciosos. Tm agasalhos surrados,
mas que do pro gasto; usam tnis,
camisetas, bons com a aba virada para
trs. Quando eles me vem, correm para
a janela do meu carro, na maior algazarra.
Se o sinal est aberto e passo direto,
eles correm para o outro quarteiro,
em bando, e me pegam no sinal da avenida,
bem mais demorado. Me chamam de
tia, fazem sinal com dois dedos, abanando
a cabea e dando um sorriso de confiana,
para que eu desa o vidro e oua.
Contam histrias de que precisam de dinheiro
para comprar material escolar, ou
esto sem almoar, ou vo viajar no feriado.
Eles me dizem que estudam, e trabalham
ali para ajudar a famlia, e me
do nomes falsos, mas s vezes escuto os
nomes verdadeiros de um ou outro, num
descuido deles. O Fbio, por exemplo, se
chama Wellington. Um tem o pai desempregado,
outro no tem pai, outro no
tem casa, outro no tem nada a no ser a
rua. Quase sempre dou dinheiro. s vezes,
compro um iogurte para cada um, outras
vezes cadernos e lpis, ou livros de
histrias infantis, ou biscoitos. Mas um
DEUS-DAR
Ana Miranda
Risco social
TEXTO 15
 Juventude e Trabalho 38
O dilema de dar ou
no dar dinheiro aos
meninos no sinal
15CA03BT17P2.qxd 12/13/06 8:34 PM Page 38
amigo meu, especialista em questes de
meninos de rua, me disse que no devo
dar dinheiro aos meninos, para no
estimular o trabalho infantil, e que eu
ajudaria muito mais se desse uma quantia
mensal para uma associao que cuida
de crianas. Um dia abri o vidro do carro
e expliquei para o chefe deles, o Fbio, o
que meu amigo havia dito, e que estava
dando o dinheiro deles para uma creche.
Ele ficou pensativo. No dia seguinte, veio
me perguntar, mesmo, o que o meu amigo
havia me dito, por que no se podia dar
dinheiro para eles. Nas vezes seguintes,
eles ainda tentaram me convencer a dar
algum dinheiro, pediam cada vez quantias
mais nfimas. Hoje passo na esquina,
eles me vem, eu os vejo, sentados na
grama, na murada do restaurante, num
caixote de madeira, eles acenam, conformados,
alegres, e eu sigo com o corao
opresso por dvidas. Eles ainda esto ali,
em bando, vivendo a vida em seu dia-adia,
crescendo de qualquer maneira, ao
deus-dar.
Ana Miranda  escritora
Extrado da revista Caros Amigos no 42
Juventude e Trabalho  39
Leandro dos Santos Ribeiro (de camiseta azul), 11 anos, cursando a 6 srie, vende
doces no trnsito de Caieiras, na Grande So Paulo, para comprar material escolar.
Foto: Cleber Bontato / AE
15CA03BT17P2.qxd 20.01.07 12:15 Page 39
Como os jovens enfrentam o desafio de um mundo que exige
formao escolar cada vez melhor e ainda esprito empreendedor
Desemprego juvenil
TEXTO 16
 Juventude e Trabalho 40
Foto: Caio Gautel
PROCURA-SE TRABALHO
16CA03BT01P2.qxd 12/13/06 8:36 PM Page 40
Inexperincia, indeciso vocacional, baixa
escolaridade ou falta de oportunidade.
So desafios que a maior parte dos
jovens brasileiros tem de enfrentar quando
comea a dar os primeiros passos em
busca de trabalho. As estatsticas demonstram:
s pouco mais da metade dos 34 milhes
de jovens entre 15 e 24 anos tm
algum tipo de ocupao.
Empregado, subempregado ou desempregado,
rico, pobre ou remediado,
nenhum jovem quer ficar onde est. Ento
vamos ver como eles driblam os obstculos
para ingressar em um mercado de
trabalho cada vez mais exigente.
Iniciativa precoce
Alguns tm sorte de encontrar logo o
caminho, como o carioca Edgar Nogueira.
Aos 13 anos de idade ele ganhou um
computador e inventou um site de busca,
o aonde.com. Aos 21 anos, recm-formado
em administrao, segue feliz e resolvido
com sua empresa e j mantm um
segundo site, o namoro.com. J a paulista
Dbora Tatiana Vilhena, 19 anos, abriu
mo de alguns sonhos, para preservar
outros. Pobre, arranjou emprego de
empacotadora de supermercado. Precisava
trabalhar logo, diz ela, que abandonou
o sonho da universidade. Particular
 muito cara; pblica, muito difcil.
O potiguar Neilton de Freitas, 21
anos, aprendeu com a ONG Natal Voluntrios
que o caminho  difcil, mas
ningum deve se contentar com menos do
que deseja. Ele terminou o curso de
garom. Busquei o setor de turismo,
forte na cidade, conta ele, que antes
tentou o mais brasileiro dos sonhos: ser
jogador de futebol. Sua meta  ser intrprete
de ingls.
E a experincia?
A mineira Angelina de Lima Ramos,
22 anos, passou um ano dando com a
cara na porta antes de arrumar um
emprego: faltava experincia. Conseguiu
o de vendedora de uma loja de luminrias
em Juiz de Fora e faz sua crtica aos obstculos:
Como algum com 16, 17 anos
pode ser experiente se ningum d uma
oportunidade? Uma tremenda injustia.
O Brasil tem poucos com muita chance
e muitos sem nenhuma, avalia o carioca
William Sebastio dos Santos Oliveira,
22 anos, que s pde estudar at a 6a srie,
porque precisou trabalhar cedo para ajudar
em casa. Agora parece que encontrou sua
vocao. Por meio da Incubadora Afro-
Juventude e Trabalho  41
Ao lado: Jovens aguardam 
procura de emprego no Palcio
do Trabalhador em So Paulo.
16CA03BT01P2.qxd 19.01.07 09:52 Page 41
Brasileira, que promove o empreendedorismo
entre jovens afrodescendentes, desenvolveu
sua empresa de grafismo e j vive
de estampar camisetas e faixas.
Vocao elstica
O apicultor gacho Francis Leal Batista,
19 anos, cursa engenharia agrcola
graas a uma bolsa do Programa Universidade
para Todos, do governo federal.
Queria ser bilogo, mas no teria condies
de pagar a faculdade. Aqui, encontrei
minha vocao e tenho muito mais
mercado, comemora.
Com pouco estudo e sem experincia,
a cearense A. G. F, de 19 anos, sente na
pele as dificuldades de ingressar no mercado
de trabalho. Fiz at a 7a srie e depois
que engravidei no deu para continuar os
estudos. Quando meu filho nasceu, no
tinha com quem deix-lo e por isso no
procurei emprego, diz ela, que conta com
a ajuda da av para sobreviver.
Das ruas para o cu
Por muito pouco a baiana Luciana
Xavier, de 21 anos, no engrossou o triste
exrcito de desalentados. Dos 2 aos 14
anos, ela viveu nas ruas de Salvador, pedindo
esmola, dormindo ao relento. Sua
vida s tomou outro rumo quando ingressou
no Projeto Ax: O Ax mudou os
rumos da minha existncia. Percebi potencialidades
em mim mesma que no conhecia.
Isso me ajudou a descobrir o que gostava
de fazer. Terminei o curso de moda e
virei estilista. Ganhei uma bolsa para estudar
numa faculdade de moda de Florena,
na Itlia, e agora quero ser uma profissional
revolucionria, conta Luciana.
Escolha o caminho
Em So Paulo, o projeto Cidade Escola
Aprendiz tambm est dando muito
certo. Participante da primeira turma do
Aprendiz, a paulistana Mnica Alves, de
23 anos, formou-se em arquitetura e
trabalha na restaurao de prdios no
centro de So Paulo: O Aprendiz me fez
acreditar que eu poderia conseguir fazer
o que gostava. O problema de alunos de
escolas pblicas, como era o meu caso, 
no saber como concretizar os seus
sonhos.
Difcil acesso
Os jovens portadores de necessidades
especiais ainda tm dificuldades maiores.
Embora a legislao brasileira exija que
empresas maiores reservem pelo menos 5%
Texto 16 / Desemprego juvenil
 Juventude e Trabalho 42
16CA03BT01P2.qxd 12/13/06 8:36 PM Page 42
de suas vagas a trabalhadores com esses
problemas, a situao  complexa: a pessoa
tem dificuldade para entrar no mercado
no apenas por causa de suas limitaes,
mas tambm pelo preconceito e pelas deficincias
na capacitao e atendimento a
essas pessoas.
O Instituto Brasileiro de Defesa dos
Direitos da Pessoa Portadora de Deficincia
(IBDD), do Rio de Janeiro, trabalha em
favor da colocao de portadores de necessidades
especiais. A carioca e estudante de
direito Joana de Montenegro Roquete, 22
anos, se beneficiou. Ela tem uma doena
degenerativa, precisa usar cadeira de rodas
e conseguiu trabalho na consultoria jurdica
da companhia Furnas Centrais Eltricas,
como empregada terceirizada. A lei
que obriga as empresas a contratarem deficientes
facilitou minha entrada no mercado,
mas a maior dificuldade do portador de
deficincia no  obter uma vaga e sim boa
qualificao, principalmente pela dificuldade
de acesso fsico s instituies de ensino,
diz Joana.
Juventude e Trabalho  43
Extrado do Portal Onda Jovem
http://ondajovem.terra.com.br/manchete. asp?ID_Edicao=8
O subemprego  outra faceta do drama de
muitos jovens, principalmente os pobres e
com pouco estudo. Eles pulam de emprego
em emprego, exercendo funes mnimas e
corriqueiras. O mineiro A.L., de 16 anos, de
Ipatinga,  exemplo. H um ano largou a escola
e foi trabalhar em um mercadinho do bairro.
 muito cansativo trabalhar o dia todo e
ainda estudar  noite, diz. E o emprego no
mercadinho, sem carteira assinada, no foi o
primeiro. Ele comeou aos 14 anos numa oficina
mecnica, j foi ajudante de pedreiro e
balconista de bar. Decidi trabalhar porque
meus pais no tinham condies de me dar
coisas que eu queria. Precisava ter meu
prprio dinheiro, ganho salrio mnimo. A situao
no est fcil. L no mercado chega
muita gente procurando trabalho. Por isso, eu
tento de fazer tudo certinho, seno vem outro
e toma minha vaga, constata o garoto.
A luta por um emprego
16CA03BT01P2.qxd 12/13/06 8:36 PM Page 43
H mais de 1 bilho de pessoas no
mundo que tm entre 15 e 25 anos
de idade. Oitenta e cinco por cento
desses jovens vivem em pases em desenvolvimento,
como o Brasil, onde muitos
deles estudam, trabalham, e vivem na
extrema pobreza.
Calcula-se que existam 180 milhes
de desempregados no planeta, sendo que,
desses, 74 milhes so jovens.
Um nmero ainda maior de pessoas,
jovens e adultos, enfrenta longas jornadas
de trabalho informal, lutando para conseguir
sua subsistncia.
Enquanto para alguns a globalizao e a
tecnologia oferecem novas oportunidades de
trabalho, para muitos jovens estas mesmas
tendncias aumentam a dificuldade de
arranjar emprego  sendo que a discriminao
contra jovens mulheres  ainda maior.
Jovens pobres ou sem perspectivas
encontram-se em maior risco de serem
atrados para comportamentos socialmente
destrutivos. A sua energia, sua capacidade
para a inovao e as suas aspiraes so
bens que a sociedade no pode desperdiar.
PRIMEIROS
PASSOS
Os jovens tm a
soluo, mas
quem os procura?
Desemprego juvenil
TEXTO 17
 Juventude e Trabalho 44
Adaptado do site: http://www.oitbrasil.org.br
17CA03BT05P2.qxd 12/13/06 8:41 PM Page 44
Risco social
TEXTO 18
Fonte P
Angeli SE LIGA, MANO!
Segurana e Sade no Trabalho  45
 Voc fica se perguntando o que vai ser quando crescer?
 Se liga, mano! No raciocino sobre hipteses!
18CA03BT27P2.qxd 12/13/06 8:42 PM Page 45
 Juventude e Trabalho 46
Aepidemia do HIV/Aids est afetando
profundamente a estrutura social,
cultural e econmica, constituindose
em uma grave ameaa ao mundo produtivo,
na medida que afeta a fora de trabalho,
impe altos custos a empresas de
todos os setores, diminui a produtividade,
aumenta os custos trabalhistas e acarreta a
perda de capacidades e experincias. Estimativas
da Organizao Internacional do
Trabalho indicam que, hoje, pelo menos 25
milhes de trabalhadores, entre 15 e 49
anos de idade, esto infectados com HIV
em todo o mundo.
Diante destes fatos, a Coordenao
Nacional de DST/Aids vem promovendo
aes sobre este tema no local do trabalho.
Em outubro de 1998, foi publicada uma
Portaria do Ministrio da Sade, criando o
Conselho Empresarial Nacional de Preveno
ao HIV/Aids no Local de Trabalho.
O Conselho tem como objetivo apoiar
a resposta nacional frente  epidemia e
viabilizar aes de sensibilizao, mobilizao,
difuso de conhecimento sobre preveno
da Aids e a promoo da sade
junto s empresas.
Ao reconhecer que o problema do HIV/
Aids , tambm, uma questo do local de
trabalho, a OIT criou, em novembro de
2000, o Programa da OIT sobre HIV/Aids
e o Mundo do Trabalho. O objetivo do Programa
 contribuir para a conteno da
pandemia, sistematizando informaes sobre
o seu impacto no mundo do trabalho,
combatendo a discriminao e a excluso,
desenvolvendo campanhas de conscientizao
e prestando assessoria a seus membros.
Sade do jovem
TEXTO 19
HIV E
TRABALHO
19CA03BT09P2.qxd 12/13/06 10:49 PM Page 46
Uma das primeiras atividades do
Programa da OIT foi a produo do
Repertrio de Recomendaes Prticas
sobre o HIV/Aids e o Mundo do Trabalho,
elaborado em parceria com governos,
empregadores e trabalhadores. O
Repertrio foi lanado pelo diretor geral
da OIT na Sesso Especial das Naes
Unidas sobre HIV/Aids, realizada em
Nova York em junho de 2001. Este documento
incentiva a preveno e a assistncia
aos trabalhadores e suas famlias.
A partir dos princpios bsicos de proteo
dos direitos dos trabalhadores, de
promoo do emprego, de proteo social e
do dilogo social da OIT, o documento
cobre temas como a preveno, o treinamento,
a testagem anti-HIV e a confidencialidade,
a assistncia e o apoio aos empregados
infectados e afetados pelo HIV/Aids.
So eles:
1. reconhecimento do HIV/Aids como um
problema do local de trabalho;
2. no-discriminao e estigmatizao das
pessoas que vivem com HIV/Aids;
3. promoo da igualdade de gnero;
4. manuteno de um ambiente de trabalho
saudvel e seguro;
5. promoo do dilogo social para estabelecer
programas e aes conjuntas entre
governos, empregadores e trabalhadores;
6. proibio de exames (screening) para
os candidatos a emprego ou pessoas
contratadas;
7. garantia de confidencialidade sobre as
informaes relativas ao HIV/Aids de candidatos
e empregados;
8. manuteno da relao de emprego;
9. desenvolvimento de aes de preveno;
e
10. garantia de assistncia e apoio aos
empregados e suas famlias.
Extrado dos Cadernos da Unesco Brasil  2002.
Juventude e Trabalho  47
Recomendaes
Promover o conhecimento acerca das questes
biolgicas, psicolgicas e socioculturais que
envolvem a Aids de modo a preparar as empresas
ou locais de trabalho para:
 reconhecer a Aids como um problema no local
de trabalho como qualquer outra enfermidade;
 no exigir a apresentao do diagnstico de
HIV tanto para os futuros contratados quanto
para os funcionrios efetivos;
 respeito s necessidades dos portadores;
 garantir uma poltica de trabalho na perspectiva
dos Direitos Humanos e em cidades como
So Paulo e Rio de Janeiro, ser jovem e ter o
primeiro trabalho  muito difcil, e se no tiver
o primeiro trabalho no se tem experincia, porque
no se tem experincia, no se consegue
trabalho.
Tudo isso gera uma roda-viva muito complicada.
Quando a questo da Aids vem se juntar ao contexto,
a tal roda-viva se agrava tremendamente.
19CA03BT09P2.qxd 12/13/06 10:49 PM Page 47
Enquanto projetamos sobre a juventude
o desencanto com as eleies
atuais, presente em uma parcela da
sociedade brasileira, as informaes sobre
o alistamento eleitoral, divulgadas recentemente
pelo TSE mostram um aumento
de 39%, em relao a 2002, do nmero de
eleitores de 16 e 17 anos, faixa etria em
que o voto  facultativo. Foi nesta faixa
etria o maior crescimento proporcional de
eleitores. Certamente estes nmeros no
falam por si, mas eles so no mnimo intrigantes
(e fornecem uma pauta e tanto para
meios de comunicao). Com a mesma
indagao na cabea, vale citar a pesquisa
Juventudes Brasileiras, recentemente divulgada
pela Unesco, que revela que 68,8%
dos jovens de 15 a 29 anos acreditam que
o voto pode mudar a situao do pas e que
66,6% deles afirmaram no ser aceitvel
no votar nas eleies.
Por outro lado, a despeito das estatsticas
que buscam dar conta do todo, h muita
informao qualitativa disponvel. So
mltiplas as experincias de participao
juvenil existentes no Brasil. No se pode
pensar nos grmios estudantis, nos centros
acadmicos, nas juventudes partidrias e
sindicais de hoje com os olhos de dcadas
atrs. Hoje  distinguindo-se e/ou identificando-
se com aqueles espaos usuais da
poltica  h posses de Hip-Hop, h jovens
reunidos em diferentes tipos de ONGs e em
movimentos sociais especficos. Redes de
jovens mulheres, da juventude negra e
indgena, de jovens rurais, de jovens pela
livre orientao sexual, de jovens com deficincia
atuam buscando inscrever seus
direitos em diferentes espaos. A Rede dos
Jovens do Nordeste, que h anos tem feito
uma campanha pelo voto consciente, se
organiza atravs do recorte regional.
Grupos culturais, religiosos e esportivos
tambm fazem parte de um cardpio
amplo e plural. Mas h momentos em que
as fronteiras (sociais e identitrias) existentes
entre eles se suspendem produzindo
combinaes inditas e desafiantes inter-
PARA ALM DOS
OVOS E TOMATES
Cresce em nmero e qualidade o universo de eleitores jovens
Participao poltica
TEXTO 20
 Juventude e Trabalho 48
Regina Novaes
20CA03BT15P2.qxd 12/13/06 8:47 PM Page 48
locues. Alguns destes momentos surgem
e ecoam no interior do Conselho Nacional
de Juventude, onde se busca valorizar as
diferentes formas de participao juvenil.
De fato, so mltiplas as expectativas
da juventude brasileira. O convite  para
que se conhea mais sobre as criativas e
pouco divulgadas experincias em curso.
Conhecendo, fica difcil dizer, a priori, que
estes grupos no estejam produzindo em
uma linguagem jovem, a no ser que se
considere que tal linguagem seja monoplio
de algum ou de algum canal.
Para terminar, vale citar uma pesquisa
realizada sob a coordenao do Ibase e
Polis, em conjunto com outras ONGs, em
sete regies metropolitanas brasileiras.
Nesta pesquisa, amplamente divulgada, a
grande maioria dos jovens entrevistados
diz desacreditar dos polticos, mas acreditar
na poltica e dela querer participar. Esta
ltima frase pode parecer um mero jogo de
palavras ou um enigma. Mas pode ser vista
tambm como um convite dos jovens para
que no se economize reflexo e para que
faa um debate que possa resgatar o sentido
mais profundo da poltica. Para alm
dos ovos, tomates e eleies.
Juventude e Trabalho  49
Regina Novaes  antroploga, secretria nacional adjunta de
Juventude e presidente do Conselho Nacional de Juventude
Fonte P Agncia Carta Maior (http://www.cartamaior.com.br)
Foto: Monica Zarattini / AE
A nova gerao de
eleitores: a jovem
Roberta Galvo,
18 anos, votando
pela primeira vez,
nas eleies
nacionais de 2002.
20CA03BT15P2.qxd 12/13/06 8:47 PM Page 49
Um em cada trs jovens brasileiros
participa de algum tipo de organizao
social. So grupos religiosos,
de hip-hop, de grafiti, que no so vistos
tradicionalmente como organizaes polticas.
Mas atualmente essas tm sido as
formas de participao social dos jovens
brasileiros.
As avaliaes fazem parte de uma
pesquisa feita pelo Instituto Brasileiro de
Anlises Sociais e Econmicas (Ibase) e
pelo Instituto Plis de Estudos e Assessoria
em Polticas Pblicas.
Apesar de se comentar que o jovem
brasileiro est em apatia, a pesquisa aponta
um grande nvel de participao juvenil,
destaca Ozanira da Costa, uma das coordenadoras
do estudo. Apesar disso, os jovens
tm buscado novas formas de participar da
vida poltica, j que h um descontentamento
grande com as formas tradicionais
de participao, como partidos, sindicatos e
entidades estudantis. A prpria realidade
do pas no estimula esse jovem a participar
da poltica tradicional, lamenta Ozira
da Costa, em entrevista ao programa Revista
Brasil, da Rdio Nacional.
Essa realidade se reflete nos nmeros.
Dos 8.000 jovens entrevistados, em oito
regies metropolitanas, 28% fazem parte
de algum grupo. Mas apenas 1% desses
jovens participam de algum partido poltico.
E apenas 0,7% est filiado a algum
sindicato.
A principal forma de participao  em
grupos religiosos (15%), seguida das associaes
esportivas (8%) e de grupos artsticos
(8%). Para Ozanira da Costa, o resultado
mostra a importncia dos trs temas  religio,
esporte e cultura  para a juventude.
Um em cada cinco jovens respondeu
sim  pergunta Voc j participou de
algum movimento ou reunio para melhorar
a vida do seu bairro ou da sua cidade?.
Desse pblico que j havia participado de
alguma mobilizao, 40% tinha como objetivo
melhorar ou criar uma rea de lazer
 Juventude e Trabalho 50
MUDANA DE
ESTILO Jovens continuam
participando da poltica,
mas de outras formas,
aponta pesquisa
Participao poltica
Daniel Merli
TEXTO 21
Foto: Marcelo Ximenez / AE
21CA03BT28P2.qxd 19.01.07 09:53 Page 50
ou esporte. Os outros motivos foram segurana
(34%), melhora de saneamento
(29%) e de postos de sade (27%).
Duas das chaves para essa participao,
segundo a pesquisadora, so a renda e
o grau de educao dos jovens. A pesquisa
revelou que quanto maior a renda do
jovem, maior seu grau de participao em
organizaes sociais. O mesmo vale para o
grau de instruo.
A grande ligao para que o jovem
possa participar mais da vida poltica e da
sociedade  a educao, afirma. Mas o
jovem pobre tem uma grande dificuldade
de acesso  educao e no tem estmulo.
J o jovem com renda familiar melhor
tem condio de ir a uma escola particular
e l tem mais acesso  informao e
mais estmulo para participar da vida
poltica do pas.
A falta de acesso  informao  outro
obstculo  participao, segundo a pesquisadora.
A pesquisa mostrou que 85% dos
jovens se informam pela televiso. (...) Os
jovens no tm acesso e as escolas no estimulam
temas da atualidade.
A pesquisa dos institutos Plis e Ibase
foi feita em dois perodos: julho de 2004,
pouco antes das eleies municipais, e
novembro de 2005, perodo da crise poltica
que atingiu o Congresso Nacional.
Foram entrevistadas 8 mil pessoas de 15
a 24 anos das regies metropolitanas de
Belm, Belo Horizonte, Porto Alegre,
Recife, Rio de Janeiro, Salvador, So
Paulo e Distrito Federal.
Depois da pesquisa quantitativa,
foram escolhidos 900 jovens para uma
pesquisa qualitativa. Segundo Ozira da
Costa, foi usado um mtodo canadense
chamado de Grupos de Dilogo. So
formados grupos de discusso sobre
alguns temas para descobrir a opinio dos
entrevistados sobre cada assunto.
Juventude e Trabalho  51
Extrado do site: http://ww.radiobras.gov.br
Grupo que faz trabalho voluntrio com crianas na Escola do Retiro, em Pirituba. Na foto, da esquerda
para a direita: Luana dos Santos, Paulo Frana, DJ Dudu, Domingos Lima e Adevaldo de Souza.
21CA03BT28P2.qxd 12/13/06 8:48 PM Page 51
Desconfiai do mais trivial ,
na aparncia singelo.
E examinai, sobretudo,
o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
no aceiteis o que  de hbito
como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confuso organizada,
de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural
nada deve parecer impossvel de mudar.
NADA 
IMPOSSVEL
DE MUDAR
Brecht
Participao poltica
TEXTO 22
 Juventude e Trabalho 52
22CA03BT22P2.qxd 20.01.07 12:18 Page 52
Dessa juventude serei vivente,
A alma eterna da vida, a minha prece,
Que de sonho e conquistas enriquece,
O ontem, o hoje, o amanh e eternamente.
Quero viv-la sempre intensamente,
Nos momentos de glria envaidece,
Na inquietao que a vida oferece,
No rosto que traz um sorriso ausente.
Se na rebeldia do inconsciente,
Encontra-se o desejo que estremece,
Amar, lutar, vencer, poder ser gente,
Ser um jovem que luta e no esmorece,
E mesmo que na nsia se faz carente,
De viver o sonho nunca se esquece.
Ser jovem
TEXTO 23
Juventude e Trabalho  53
SONETO DE
JUVENTUDE
Dairi Jos Antnio Duarte
Cordeiros  BA
23CA03BT30P2.qxd 20.01.07 12:20 Page 53
Apartir da situao de discriminao
vivida pelo cantor e compositor
Marcelo Yuka  ex-baterista da banda
O Rappa e hoje membro do Conjuv  em
setembro de 2005, denunciada e documentada
pela Escola de Gente  Comunicao
em Incluso, publicada no jornal O Globo, o
Conselho se mobilizou e solicitou  organizao
que redigisse um documento discutindo
o tema acessibilidade para pessoas
com deficincia. Abaixo, a carta:
Acessibilidade
A Organizao das Naes Unidas
(ONU) aponta que existem 600 milhes de
pessoas com deficincia no planeta  400
milhes nos pases em desenvolvimento.
Ainda, segundo a ONU, a deficincia  tanto
causa como efeito da pobreza: 82% das
pessoas com deficincia do mundo, princi-
CONSELHO NACIONAL
DE JUVENTUDE APROVA
POR ACLAMAO CARTA
SOBRE ACESSIBILIDADE
O Conselho Nacional de Juventude aprovou por aclamao a
Carta de Maro, que discute a acessibilidade e incluso social
de jovens com deficincias.
Necessidades Especiais
TEXTO 24
 Juventude e Trabalho 54
Marcelo Yuka
Foto: Wilon Junior / AE
24CA03BT29P2.qxd 12/13/06 8:52 PM Page 54
palmente crianas e jovens, vivem abaixo
da linha da pobreza. Dados do Banco Mundial
apontam que pelo menos 79 milhes de
indivduos com deficincia esto na Amrica
Latina e no Caribe, dos quais 24 milhes
no Brasil, de acordo com o Censo 2000 do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica
(IBGE).
Por que, ento, atender s necessidades
especficas de pessoas com deficincia
ainda  considerado custo e no investimento
pela maioria dos especialistas em
polticas pblicas?
Por que as polticas pblicas continuam
tratando pobreza e deficincia como questes
isoladas?
De que modo as necessidades especficas
da deficincia podem mudar o rumo de
programas e projetos de desenvolvimento,
como o combate  misria e  fome?
No Brasil, mais da metade de crianas,
adolescentes e jovens com deficincia 
pobre (conforme dados da ONU) e raramente
consegue participar de programas
sociais em suas comunidades. No costuma
haver previso de recursos no oramento
desses projetos  governamentais, nogovernamentais
e privados  para garantir
a jovens com deficincia, direitos humanos
como o de ir e vir e o de se comunicar. Direitos
garantidos por meio de ajudas tcnicas
previstas em leis como intrprete da Lngua
Brasileira de Sinais (Libras), legendagem
em programas de televiso e sesses de
cinema, material em braile e sites com acessibilidade
de acordo com padres nacional
e internacional.
Agncias de cooperao internacional,
programas de investimento social corporativo
e polticas pblicas governamentais e
no-governamentais continuam apostando
primeiro na busca de solues para a pobreza
e, s depois, para a deficincia  enfoque
que no vem trazendo os resultados esperados.
A conseqncia desse modo dicotmico
de perceber a juventude de um pas  a
falta de convivncia de jovens com e sem
deficincia e a perpetuao de prticas seculares
de discriminao. Grande parte dos
projetos de juventude no Brasil continua
discriminando jovens com deficincia por
absoluta inconscincia e desconhecimento.
No dia 2 de dezembro de 2004, o governo
federal atendeu uma demanda histrica
dos movimentos sociais que defendem os
direitos de pessoas com deficincia: assinou
o Decreto Federal n 5.296, regulamentando
as leis nos 10.048/00 e 10.098/00 e estabelecendo
normas gerais e critrios bsicos
para a promoo da acessibilidade das
pessoas com deficincia ou mobilidade
reduzida (gestantes, pessoas com crianas
de colo, pessoas com idade igual ou superior
a sessenta anos, pessoas obesas, entre
outras situaes).
A regulamentao dessas leis representou
um passo decisivo para a cidadania e
incluso de crianas, jovens, adultos (as) e
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idosos (as) com deficincia ou mobilidade
reduzida, garantindo que o acesso  educao,
 sade, ao trabalho, ao lazer, ao turismo
e  cultura contemple a diversidade
humana. O decreto trata de cinco eixos
principais: acessibilidade no meio fsico;
acessibilidade nos sistemas de transportes
coletivos terrestres, aquavirios e areos;
acessibilidade na comunicao e na informao;
acesso s ajudas tcnicas; e existncia
de um programa nacional de acessibilidade
com dotao oramentria especfica.
A legislao brasileira  um exemplo mundial
com relao  incluso de pessoas com
deficincia, o principal desafio  divulg-la
e coloc-la em prtica, comprometendo
todos os segmentos da sociedade brasileira
neste processo.
Relacionando as questes da juventude
com as especficas da deficincia, temos um
panorama indito. O pas tem no momento
a maior gerao de jovens de todos os
tempos: so 48 milhes de brasileiros (as)
com idade entre 15 e 29 anos. Ao mesmo
tempo, cresceu no pas a percepo de que
 preciso construir polticas pblicas inclusivas
para esse segmento, ou seja, abertas 
diversidade, contemplando as caractersticas
e as necessidades inerentes das infinitas
juventudes, entre elas aquela formada por
jovens com qualquer tipo de deficincia,
hoje com baixssima escolaridade. Nesse
contexto, vem ganhando legitimidade como
assunto estratgico e de relevncia nacional
a urgncia em reconhecer os (as) jovens
brasileiros (as) como sujeitos de todo e
qualquer direito, entre eles, direito  participao
em todos os processos que lhes interessem
direta e indiretamente.
A partir dessa conjuntura, a presidncia
da Repblica lanou no ano de 2005
uma poltica nacional para a juventude,
criando a Secretaria Nacional de Juventude
e o Conselho Nacional de Juventude. Estas
decises refletem um sistemtico processo
de aprendizado e reflexo do governo, sociedade
civil, parlamento e organismos de
cooperao internacional no tema; mas
crianas, adolescentes e jovens com deficincia
no nosso pas continuam, na maioria
das vezes, invisveis para profissionais de
todos esses setores. No esto assegurados
recursos e investimentos federais suficientes
em todas as reas de atuao de polticas
pblicas de modo a criar condies reais
de incluso de pessoas com deficincia na
sade, na escola, no trabalho, no transporte,
na cultura, no esporte, no lazer e no
acesso  comunicao e  informao.
O Conselho Nacional de Juventude j
se posicionou com relao  acessibilidade
e  incluso de pessoas com deficincia no
Brasil a partir da denncia feita pela Escola
de Gente  Comunicao em Incluso, organizao
da sociedade civil que participa do
Conselho, publicada no jornal O Globo, na
coluna Ancelmo Gis, em 27 de setembro
de 2005. A nota relata atos de discriminao
contra o msico e poeta Marcelo Yuka,
tambm membro do Conselho, durante
Texto 24 / Necessidades Especiais
 Juventude e Trabalho 56
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embarque no aeroporto de Braslia. Partindo
do princpio de que governo, empresas e
organizaes da sociedade civil no devem
impedir ou prejudicar o acesso de pessoas
com deficincia a bens, servios e direitos,
para no ferir os princpios de legalidade,
eficincia e moralidade, o Conselho Nacional
de Juventude trabalha para garantir s
pessoas com e sem deficincia o pleno exerccio
de direitos humanos e fundamentais,
como o de ir e vir. O caso de Marcelo Yuka
no  exceo, e sim regra. No foi um
acontecimento isolado. Diariamente, uma
lista de pessoas com deficincia enfrenta
situaes de constrangimento e violao de
seus direitos.
O Conselho Nacional de Juventude
vem, desde sua criao, estabelecendo
mecanismos de acompanhamento e avaliao
dos programas governamentais destinados
aos (s) jovens brasileiros(as),
buscando aprimorar e integrar aes destinadas
a esse pblico. O objetivo  reverter
o quadro atual de ausncia de polticas
especficas para tratar do tema com
propostas concretas de mudana alinhadas
com a legislao brasileira e filosoficamente
inspiradas na fora mobilizadora
e transformadora da juventude.
H pressa em disseminar o conceito
de uma sociedade inclusiva entre jovens
que se preparam e iniciam sua entrada na
vida adulta  pessoal e profissional. O
objetivo desta carta  tornar pblico para
o Brasil o compromisso assumido pelo
Conselho Nacional de Juventude de trabalhar
para a criao de polticas pblicas de
juventude inclusivas, que simultaneamente
ratifiquem a diversidade humana como
um valor e combatam a desigualdade
econmica e social.
Conselho Nacional de Juventude
Juventude e Trabalho  57
Fonte: DefNet/Escola de Gente
Apresentao de
caopeira com
crianas deficientes
na inaugurao da
sede da Associao
de Assistncia 
Criana Deficiente,
em Osasco, na
Grande So Paulo
Foto: Srgio Castro / AE
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Cultura juvenil
TEXTO 25
 Xxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxx 58
ENSAIO: BRUNO MIRANDA
Quando pensei pela primeira vez em
fotografar o movimento Hip-hop, uma coisa
no saa da minha cabea... Como vou fazer
para me aproximar dessa galera to ressentida
com a vida? Escutei Racionais a minha
adolescncia toda. Sentia o desprezo que
tinham por brancos nascidos em bero de
ouro criados  base de sustagem e leite
ninho coisa e tal. Eu no podia negar
minhas razes, fingir que era malandro,
sendo que nunca passara de um jovem de
classe mdia que sempre teve acesso a tudo.
Depois de entrar na faculdade e
alguns professores cheios de mestrados e
doutorados me ensinarem a antropologia
social estrutural aplicada na periferia,
resolvi voltar, mas agora com um olhar
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Xxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxx  59
Bruno Miranda  formado em jornalismo, nascido em 1982.
Extrado da revista Caros Amigos
mais crtico. Muitas coisas escritas nos
livros eu joguei fora antes de pegar o
nibus para dar um rol.
Quando me encontrei com a galera
do movimento capixaba, fiquei de cara:
todos me receberam muito bem. Lgico
que no rolou babao nem nada, mas
me respeitaram e eu fiz o mesmo. Com o
tempo, viram que eu no estava ali para
brincar. Levava a srio, tentava ser um
quinto elemento, e aos poucos conquistei
meu espao (e venho conquistando!).
Muito mais do que belas fotos e histrias
interessantes, esse trabalho me fez
ver a vida de outro jeito, alimentou minha
alma artstica, viver pela arte, pelo amor
a uma causa, no meu caso a fotografia.
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Nos ltimos anos, temos visto com
freqncia, principalmente nos
perodos eleitorais, campanhas e
projetos de lei sobre a reduo da idade
penal e o aumento do tempo de internao
para adolescentes infratores. Essas
campanhas e projetos so patrocinados
por setores polticos que demonstram
notria atuao reacionria e oportunista.
Tambm participam familiares de vtimas
de crimes praticados por adolescentes
 que movidas, justificadamente, por
forte emoo e dor, defendem a reduo
da inimputabilidade penal ou at a morte
dos jovens autores de crimes.
Porm os signatrios da campanha
desconhecem ou preferem no conhecer as
verdadeiras causas da violncia no Brasil e
as distores em torno da responsabilizao
penal dos adolescentes. A medida
refletiria, necessariamente, no aumento
da criminalidade  e no o contrrio, como
pugnam seus defensores. Vejamos sinteticamente
algumas das principais questes
que envolvem o polmico assunto:
 Um recente levantamento da Secretaria
de Segurana Pblica do Estado de So
Paulo mostrou que os adolescentes so
responsveis por apenas 1% dos homicdios
praticados no estado e por menos de
4% do total de crimes;
 Pelo contrrio, os jovens so as principais
vtimas da violncia no Brasil. Conforme
uma pesquisa realizada em 1999
pelo Movimento Nacional de Direitos
Humanos, para cada adolescente que
comete um crime, outros quatro so vtimas
de crimes praticados por adultos
contra eles. Um recente relatrio da
A REDUO
S
COMPLICA
Uma reflexo sobre as propostas de reduo
da idade penal em perodos eleitorais
Risco social
TEXTO 26
 Juventude e Trabalho 60
Ariel Alves
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Unesco demonstra que os jovens so as
principais vtimas da falta de oportunidades,
do desemprego, da excluso social
e, principalmente, da violncia. Quase
metade de todos os homicdios que ocorrem
no pas  praticada contra jovens
com idades entre 15 e 24 anos. Esse  o
mesmo perfil da maioria das vtimas da
violncia policial e dos grupos de extermnio
em So Paulo: alm de jovens, so
negros e pobres;
 Os jovens com idades entre 18 e 25 anos
representam 70% da populao prisional
brasileira, evidenciando que o Cdigo
Penal e suas punies no inibem os adultos
jovens da prtica de crimes. Portanto,
tambm no serviria para intimidar os
adolescentes entre 16 e 18 anos;
 A questo da inimputabilidade  considerada
clusula ptrea, se tratando de direito
e garantia fundamental das crianas
e dos adolescentes, sendo, portanto,
inconstitucional qualquer emenda visando
 modificao, conforme pode-se verificar
nos artigos 5o, 228 e 60, pargrafo
4o, inciso IV da Constituio Federal;
 O Brasil ratificou a Conveno da ONU
(Organizao das Naes Unidas) de
1989, que define como crianas e adolescentes
todas as pessoas com menos de 18
anos de idade, que devem receber tratamento
especial e totalmente diferenciado
dos adultos;
 As pesquisas que divulgam a defesa da
reduo da idade penal pela maioria da
populao partem de uma indagao
equivocada e que induz a erro os entrevistados:
Voc acha que os jovens com
menos de 18 anos devem ser responsabilizados?,
partindo do pressuposto de que
eles ficariam impunes. Na realidade, eles
so devidamente responsabilizados, mas
no pela lei penal e sim pela legislao
especial (Lei 8. 069/90  Estatuto da
Criana e do Adolescente), que prev no
artigo 112 as medidas socioeducativas,
que no vislumbram s a punio, mas
principalmente a reeducao e socializao
dos adolescentes infratores;
 Os crimes graves atribudos a adolescentes
no Brasil no ultrapassam 10%
do total de infraes. A grande maioria
(mais de 70%) dos atos infracionais,
so contra o patrimnio, demonstrando
que os casos de infratores considerados
de alta periculosidade e autores de
homicdios so isolados e o ECA j
prev tratamento especfico para eles;
 A reincidncia criminal no sistema penitencirio
brasileiro  de 60%, j no sistema
de internao da Febem (Fundao
Estadual do Bem-Estar do Menor) de So
Paulo, apesar da crise permanente da
instituio descumpridora do ECA, a reincidncia
infracional  de 16%, segundo
fontes oficiais. Isso demonstra que os
Juventude e Trabalho  61
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adolescentes, por esforo prprio e apoio
de entidades, esto mais propcios a
serem recuperados. Nos Estados que
cumprem o ECA, os ndices so ainda
menores, entre 1 e 5%;
 Alguns pases que reduziram a idade
penal, como a Espanha e Alemanha, verificaram
um aumento da criminalidade
entre os adolescentes e acabaram voltando
a estabelecer a idade penal em 18
anos (como mais de 70% dos pases do
mundo) e um tratamento especial, com
medidas socioeducativas, para os jovens
de 18 a 21 anos.
Tendo em vista as informaes acima,
ser que vale a pena investir na formao
de criminosos cada vez mais precoces ou
cumprir o que dispe o Estatuto da Criana
e do Adolescente, garantindo a incluso
social e os direitos da infncia e juventude
brasileiras? Vale uma reflexo!
Texto 26 / Risco social
 Juventude e Trabalho 62
Ariel de Castro Alves (ariel.alves@uol.com.br)  advogado, conselheiro
nacional do Movimento Nacional de Direitos Humanos, vice-presidente
do Projeto Meninos e Meninas de Rua, diretor do Sindicato
dos Advogados de So Paulo e colaborador da Justia Global.
Extrado de www.rets.org.br
Menores presos
almoam no
Instituto Padre
Severino, na Ilha
do Governador,
Rio de Janeiro.
Foto: Tasso Marcelo / AE
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PATINHO
Eles traam e destraam o seu caminho   a dana  dana do patinho
Eles mandam uma qualquer e tu leva f direitinho   a dana  dana do patinho
Dana do patinho (a verdadeira!)
Voc que assina contrato sem ler
Acha que a ONU se importa com voc
Voc que acredita no ouro nacional
Chegou a sua hora isso  fenomenal
Voc que acredita no que falam na TV
D seu dinheiro pro pastor pra fazer sua f valer (eh, eh)
E pra voc que acredita no velho azul-marinho, essa  sua dana
Dana do patinho (a verdadeira!)
Voc que acredita na mega-sena, toto-bola, raspadinha e na garota de Ipanema
Voc que acredita nos caras pintadas, acredita que o Brasil vai t ganhando com a ALCA
Acreditou em inflao zero, no salrio-desemprego
Mas no viu que o governo tava botando no seu
Parabns, voc  perfeito, foi feito pra isso
Pra danar a dana, a verdadeira
Dana do patinho (a verdadeira!)
Voc que toma volta quando quer ficar ligado
Acredita no bicho-papo e no aumento de salrio
Voc que paga seus impostos religiosamente, esperando algum dia uma aposentadoria decente
Voc que acredita em alguma punio pros que roubam e colocam no da populao
E pra voc que acredita que nunca foi lesado, cante comigo esse hino, esse  o meu recado:
brao em forma de asa, alterna p e faz biquinho tu entrou na dana
Dana do patinho (a verdadeira!)
A VERDADEIRA DANA DO
http://www.midiaindependente.org/pt/red/2004/06/283492.shtml
Cultura juvenil
TEXTO 27
Juventude e Trabalho  63
BNego
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Expediente
Comit Gestor do Projeto
Timothy Denis Ireland (Secad  Diretor do Departamento da EJA)
Cludia Veloso Torres Guimares (Secad  Coordenadora Geral da EJA)
Francisco Jos Carvalho Mazzeu (Unitrabalho)  UNESP/Unitrabalho
Diogo Joel Demarco (Unitrabalho)
Coordenao do Projeto
Francisco Jos Carvalho Mazzeu (Coordenador Geral)
Diogo Joel Demarco (Coordenador Executivo)
Luna Kalil (Coordenadora de Produo)
Equipe de Apoio Tcnico
Adan Luca Parisi
Adriana Cristina Schwengber
Andreas Santos de Almeida
Jacqueline Brizida
Kelly Markovic
Solange de Oliveira
Equipe Pedaggica
Cleide Lourdes da Silva Arajo
Douglas Aparecido de Campos
Eunice Rittmeister
Francisco Jos Carvalho Mazzeu
Maria Aparecida Mello
Equipe de Consultores
Ana Maria Roman  SP
Antonia Terra de Calazans Fernandes  PUC-SP
Armando Lrio de Souza  UFPA  PA
Clia Regina Pereira do Nascimento  Unicamp  SP
Eloisa Helena Santos  UFMG  MG
Eugenio Maria de Frana Ramos  UNESP Rio Claro  SP
Giuliete Aymard Ramos Siqueira  SP
Lia Vargas Tiriba  UFF  RJ
Lucillo de Souza Junior  UFES  ES
Luiz Antnio Ferreira  PUC-SP
Maria Aparecida de Mello  UFSCar  SP
Maria Conceio Almeida Vasconcelos  UFS  SP
Maria Mrcia Murta  UNB  DF
Maria Nezilda Culti  UEM  PR
Ocsana Sonia Danylyk  UPF  RS
Osmar S Pontes Jnior  UFC  CE
Ricardo Alvarez  Fundao Santo Andr  SP
Rita de Cssia Pacheco Gonalves  UDESC  SC
Selva Guimares Fonseca  UFU  MG
Vera Cecilia Achatkin  PUC-SP
Equipe editorial
Preparao, edio e adaptao de texto:
Editora Pgina Viva
Reviso:
Ivana Alves Costa, Marilu Tassetto,
Mnica Rodrigues de Lima,
Sandra Regina de Souza e Solange Scattolini
Edio de arte, diagramao e projeto grfico:
A+ Desenho Grfico e Comunicao
Pesquisa iconogrfica e direitos autorais:
Companhia da Memria
Fotografias no creditadas:
iStockphoto.com
Apoio
Editora Casa Amarela
Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)
(Cmara Brasileira do Livro. SP, Brasil)
Juventude e trabalho / [coordenao do projeto
Francisco Jos Carvalho Mazzeu, Diogo Joel Demarco,
Luna Kalil]. -- So Paulo : Unitrabalho-Fundao
Interuniversitria de Estudos e Pesquisas sobre o Trabalho ;
Braslia, DF : Ministrio da Educao. SECAD-Secretraria de
Educao Continuada, Alfabetizao e Diversidade, 2007,
-- (Coleo Cadernos de EJA)
Vrios colaboradores.
Bibliografia.
ISBN 85-296-0059-2 (Unitrabalho)
ISBN 978-85-296-0059-8 (Unitrabalho)
1. Juventude 2. Livros-texto (Ensino Fundamental)
3. Trabalho I. Mazzeu, Francisco Jos Carvalho.
II. Demarco, Diogo Joel. III. Kalil, Luna. IV. Srie.
07-0386 CDD-372.19
ndices para catlogo sistemtico:
1. Ensino integrado : Livros-texto :
Ensino fundamental 372.19
eja_expediente_Juventude_2379.qxd 1/26/07 3:25 PM Page 64

